Era uma sexta-feira. Trabalhou muito, estava cansada, estressada. Merecia alguma diversão. Saiu com os colegas do trabalho. Só umas duas horinhas, algumas cervejas e iria pra casa.
No bar, a conversa estava boa. A cerveja estava boa. As horas foram passando. O cansaço aumentava, mas a vontade de ir embora ficou esquecida.
Alguém sugeriu uma festa. Sim, uma festa rolando ali perto, música boa, que tal? Por que não?
E lá foi ela. E dançou, conversou, bebeu mais.
Estava tudo ótimo, muito divertido, mas o cansaço bateu forte. Junto com a bebida, foi demais. Dor de cabeça e agora sim, uma vontade absurda de ir pra casa.
Pegou um táxi e foi embora. No elevador, olhou o relógio. Três horas da manhã! Não tinha visto o tempo passar... Estava tonta, bêbada, morrendo de sono e apertada pra fazer xixi!
Entrou no apartamento e nem acendeu as luzes. Passou pelo quarto, correu pro banheiro, sentou no vaso sanitário. Então se deu conta: tinha alguém deitado na sua cama!
Levantou, vestiu a roupa e olhou pela porta do banheiro. O quarto estava escuro, mas dava pra ver a cama vazia. Exatamente como foi deixada pela manhã.
É, estava muito bêbada. Lavou o rosto, se olhou no espelho. Nada atraente! Agradeceu por não ter encontrado ninguém interessante na festa. Do jeito que ela estava, não teria sido uma boa ideia.
Então, ouviu passos. A primeira reação foi de susto. Mas aí lembrou do quanto bebeu, e continuou a divagar sobre sua (falta de) beleza na frente do espelho.
Outro barulho. Como se alguém tivesse esbarrado num móvel, numa cadeira. Não é possível! Que que tinha naquele drink???
Foi pro quarto, sentou na cama. Tirou os sapatos, massageou os pés. Teve a impressão de ouvir vozes.
Agora já estava ficando nervosa... levantou e começou a andar de vagar. Viu uma luz vindo da sala, intermitente, fraca. Chegou na porta do quarto e espiou. A televisão estava ligada.
O nervosismo virou medo. Como a televisão estava ligada se quando ela entrou estava tudo apagado e não tinha mais ninguém ali???
Parou, respirou fundo, tentou recobrar alguma sanidade. Poderia ter pisado no controle remoto quando passou a caminho do banheiro. Foi isso! Claro!
Foi até a sala tropeçando. As pernas tremiam, já não sabia se por causa da bebida ou do nervoso. Olhou em volta e achou o controle no sofá.
Confusa, pegou o controle e olhou imóvel para a televisão. A imagem não fazia sentido. Não era um filme, uma novela, um programa. Estava fora de sintonia, borrada, mas parecia ser o apartamento. Reconheceu, entre um borrão e outro, o sofá, a mesa, as cadeiras e até a própria TV!
O coração disparou e ela apertou o botão de desligar. A imagem sumiu.
Com a sala mergulhada novamente na escuridão, percebeu que a luz da cozinha estava acesa. Sem as vozes que vinham da TV, ouviu os sons que vinham de lá. Podia jurar que tinha mais alguém na casa!
Mesmo apavorada, seguiu para a cozinha. Devia estar mesmo bêbada, isso era um sonho, um pesadelo na verdade.
Parou na porta, ainda segurando com força o controle da televisão. Queria chorar, mas teve medo de fazer algum barulho. Fechou os olhos e abriu novamente, esperando acordar no sábado de manhã, deitada na cama, com uma baita ressaca. Mas ela ainda estava ali, de pé, tremendo e com o coração disparado. Morrendo de medo e sem saber o que fazer.
Mais um passo, entrou na cozinha. De costas, uma mulher com uma de suas camisolas. Ela não pareceu se incomodar com sua presença. Na verdade, pareceu nem perceber.
Seria uma louca, uma psicopata? O cabelo parecia igual ao dela, liso, castanho, mesmo comprimento. A cor da pele era a mesma, o mesmo biotipo. Que coisa estranha!
Esfregou os olhos. A imagem perturbadora continuava lá.
A mulher começou a se virar e agora ela estava quase desmaiando. Não podia acreditar naquilo, não podia!
De repente, a mulher pareceu perceber sua presença. Congelou o movimento, ficou parada, rígida. Dava pra perceber sua respiração acelerando e suas mãos tremendo.
Ela já não conseguia conter a ansiedade, deu um passo a frente e pigarreou. Uma coragem a invadiu e ela adotou uma postura desafiadora. Parou e esperou.
A invasora foi virando bem devagar, insegura, tremendo, chorando.
Então ficaram frente a frente e ela se viu, sem maquiagem, de camisola, o cabelo solto. O olhar apavorado, a boca entreaberta num choque.
Primeiro ficou confusa, depois nervosa, então com muito medo.
Um grito de terror. Depois outro. Depois o silêncio e a escuridão.
sábado, 21 de fevereiro de 2015
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015
No Estacionamento
Saíram do cinema tarde. Era a última sessão e o shopping já estava fechando. O estacionamento estava deserto. Poucos carros, ninguém por perto, silêncio. Ouviam apenas os próprios passos e o som de sua respiração.
Distraídos, andavam calmamente, tentando lembrar onde haviam deixado o carro. De repente, tiveram a impressão de ouvir um riso de criança. Bem baixinho, bem ao longe. Pararam, prestaram atenção. Nada. Silêncio outra vez.
Deve ter sido só impressão, pensaram. Talvez um ruído dentro do shopping, ou na rua, ou em outro andar do estacionamento. Ele a envolveu nos braços e a beijou. Ficaram ali por um momento, rendidos pela sensação de abandono. Estavam sozinhos no mundo, sem pressa. O universo era deles.
Olhos fechados, lábios selados num intenso beijo. Uma sensação estranha, um arrepio. Ambos abrem os olhos ao mesmo tempo, procurando quem passou por ali. Alguém passou correndo, eles sentiram! E, novamente, risos de criança.
Cadê meu carro, ele pergunta já sem muita paciência. Tenho certeza de que estacionei por aqui! Ela concorda, mas o carro não está lá. E eles ouvem os risos outra vez.
Agora mais próximos, mais altos. Mas eles não sabem de onde vêm. Parecem vir de todas as direções, ecoar pelas paredes de concreto, cercá-los num furacão de gargalhadinhas sinistras.
Já não conseguem mais lembrar de onde vinham. Esse estacionamento era assim tão grande??? Ela sugere voltar ao shopping, ele mostra que já não há entradas visíveis. Parecem estar longe, muito longe de tudo.
As luzes estão falhando? Parece que está ficando escuro... e frio. E os risos aumentam e se aproximam. E agora eles não veem nem carros. Tudo está completamente deserto.
Estão abraçados, ele tentando protegê-la nos braços. Ela treme de medo, a respiração ofegante. Não pode ser! Isso parece um pesadelo, uma merda de um pesadelo! Isso não está acontecendo!
Passos. Eles ouvem passos. Finalmente alguém vai aparecer e tudo vai voltar ao normal! São passinhos leves e hesitantes. Eles olham na direção do som, ansiosos.
Tem uma parede. De trás da parede, vem rolando pelo chão uma bola. Devagar, a bola vermelha desliza pelo chão enquanto todo o ruído cessa e os passos simplesmente param.
Eles também param. Imóveis, assistem à cena como se já não estivessem ali. Completamente confusos, petrificados pelo medo.
Ela fecha os olhos, ele diz precisamos sair daqui. Ela não consegue se mover, ele diz vamos!
Os passinhos leves agora estão correndo e, de trás da parede, surge um menino. Ele corre pra pegar a bola, mas para no caminho e olha pra eles.
É um menino bem jovem, deve ter uns cinco ou seis anos. É branco, pele bem clara e tem cabelos curtos e loiros, ao que parece. Sua imagem não está muito clara, eles precisam forçar a visão para enxergá-lo. Ele levanta a cabeça e olha na direção deles. Seus olhos são completamente negros.
Nos segundos que se passam, eles reconhecem a famosa vítima de um trágico acidente no estacionamento do shopping, alguns anos antes. O menino que foi atropelado ao atravessar correndo para pegar sua bola. Leram sobre o caso e viram fotos no jornal. O culpado conseguiu fugir sem prestar socorro e a criança morreu ali, em meio a muito sofrimento.
Enquanto tudo se esclarece, a luz vai sumindo, o ar parece acabar e eles sentem uma pressão muito forte a sua volta. Isso é loucura, ele grita.
O menino olha fixamente para eles e o som dos risos volta forte e alto, vindo de todas as direções.
Ai, meu Deus! Ela chora e reza ao mesmo tempo, enquanto ele diz merda, que merda é essa, mas também começa a chorar. Ele a aperta nos braços.
Tudo fica escuro, muito escuro. Eles têm a sensação de estarem sendo sugados para outra dimensão. Dor e medo. E escuridão. Um último grito dela e então nada.
Enquanto isso, os outros clientes da última sessão de cinema circulam pelo estacionamento. Param pra conversar, os que vieram em grupo se despedem, cada um pega o seu carro e segue em frente. Ninguém sequer imagina o que está acontecendo ali. A noite segue seu rumo e um carro fica abandonado na vaga bem em frente à saída do shopping. Seus donos jamais foram encontrados.
Distraídos, andavam calmamente, tentando lembrar onde haviam deixado o carro. De repente, tiveram a impressão de ouvir um riso de criança. Bem baixinho, bem ao longe. Pararam, prestaram atenção. Nada. Silêncio outra vez.
Deve ter sido só impressão, pensaram. Talvez um ruído dentro do shopping, ou na rua, ou em outro andar do estacionamento. Ele a envolveu nos braços e a beijou. Ficaram ali por um momento, rendidos pela sensação de abandono. Estavam sozinhos no mundo, sem pressa. O universo era deles.
Olhos fechados, lábios selados num intenso beijo. Uma sensação estranha, um arrepio. Ambos abrem os olhos ao mesmo tempo, procurando quem passou por ali. Alguém passou correndo, eles sentiram! E, novamente, risos de criança.
Cadê meu carro, ele pergunta já sem muita paciência. Tenho certeza de que estacionei por aqui! Ela concorda, mas o carro não está lá. E eles ouvem os risos outra vez.
Agora mais próximos, mais altos. Mas eles não sabem de onde vêm. Parecem vir de todas as direções, ecoar pelas paredes de concreto, cercá-los num furacão de gargalhadinhas sinistras.
Já não conseguem mais lembrar de onde vinham. Esse estacionamento era assim tão grande??? Ela sugere voltar ao shopping, ele mostra que já não há entradas visíveis. Parecem estar longe, muito longe de tudo.
As luzes estão falhando? Parece que está ficando escuro... e frio. E os risos aumentam e se aproximam. E agora eles não veem nem carros. Tudo está completamente deserto.
Estão abraçados, ele tentando protegê-la nos braços. Ela treme de medo, a respiração ofegante. Não pode ser! Isso parece um pesadelo, uma merda de um pesadelo! Isso não está acontecendo!
Passos. Eles ouvem passos. Finalmente alguém vai aparecer e tudo vai voltar ao normal! São passinhos leves e hesitantes. Eles olham na direção do som, ansiosos.
Tem uma parede. De trás da parede, vem rolando pelo chão uma bola. Devagar, a bola vermelha desliza pelo chão enquanto todo o ruído cessa e os passos simplesmente param.
Eles também param. Imóveis, assistem à cena como se já não estivessem ali. Completamente confusos, petrificados pelo medo.
Ela fecha os olhos, ele diz precisamos sair daqui. Ela não consegue se mover, ele diz vamos!
Os passinhos leves agora estão correndo e, de trás da parede, surge um menino. Ele corre pra pegar a bola, mas para no caminho e olha pra eles.
É um menino bem jovem, deve ter uns cinco ou seis anos. É branco, pele bem clara e tem cabelos curtos e loiros, ao que parece. Sua imagem não está muito clara, eles precisam forçar a visão para enxergá-lo. Ele levanta a cabeça e olha na direção deles. Seus olhos são completamente negros.
Nos segundos que se passam, eles reconhecem a famosa vítima de um trágico acidente no estacionamento do shopping, alguns anos antes. O menino que foi atropelado ao atravessar correndo para pegar sua bola. Leram sobre o caso e viram fotos no jornal. O culpado conseguiu fugir sem prestar socorro e a criança morreu ali, em meio a muito sofrimento.
Enquanto tudo se esclarece, a luz vai sumindo, o ar parece acabar e eles sentem uma pressão muito forte a sua volta. Isso é loucura, ele grita.
O menino olha fixamente para eles e o som dos risos volta forte e alto, vindo de todas as direções.
Ai, meu Deus! Ela chora e reza ao mesmo tempo, enquanto ele diz merda, que merda é essa, mas também começa a chorar. Ele a aperta nos braços.
Tudo fica escuro, muito escuro. Eles têm a sensação de estarem sendo sugados para outra dimensão. Dor e medo. E escuridão. Um último grito dela e então nada.
Enquanto isso, os outros clientes da última sessão de cinema circulam pelo estacionamento. Param pra conversar, os que vieram em grupo se despedem, cada um pega o seu carro e segue em frente. Ninguém sequer imagina o que está acontecendo ali. A noite segue seu rumo e um carro fica abandonado na vaga bem em frente à saída do shopping. Seus donos jamais foram encontrados.
sábado, 25 de janeiro de 2014
A Foto
Era apaixonada por fotos antigas. Os tons de sépia, as
bordas amareladas, as marcas do tempo. As roupas, penteados, posturas. As
expressões tão diferentes das que via nas fotos recentes.
Colecionava fotos de gerações passadas da própria família e
das famílias dos amigos, que gentilmente as cediam. E garimpava em feiras de
antiguidade e mercados de pulgas pelo mundo, sempre à procura de imagens
diferentes, intrigantes, inusitadas.
Tinha fotos de família, de animais de estimação, de crianças
em poses para o álbum da escola. De reuniões de amigos na beira da piscina, de
formaturas e casamentos. Mas, quanto mais estranha fosse a foto, mais a
interessava.
Como também adorava viajar, conseguia fotos de outros
países, outras culturas, e sempre procurava por lugares onde pudesse
comprá-las, independente de onde estivesse. Então, um dia, passeando por um
mercado de pulgas em Nova Orleans, encontrou uma barraquinha que chamou sua
atenção.
Um sujeito negro, de olhos brancos, leitosos, aparentemente
cego, era o dono. Tinha uma barba bem branquinha e usava um chapéu engraçado. Apesar
do ar sinistro, parecia uma boa pessoa. Algo nele dava uma sensação de
confiança.
Vendia artigos que pareciam ser para rituais de vodu,
quinquilharias que passavam por antiguidades e fotos, muitas fotos. E ela se
encantou. Correu na direção da barraca e começou a procurar algo interessante
nas fotos.
Entre as tradicionais fotos de família e outras
formalidades, encontrou algo que a atraiu instantaneamente: era a foto de um
grupo, com um homem em destaque no meio. Estavam numa espécie de bosque, mas o
cenário não era muito distinto. Uma névoa parecia cobrir as árvores ao fundo.
Por si só, isso já seria bastante estranho... Só que o grupo era extremamente
heterogêneo! Todos estavam com roupas de dormir, mas pareciam saído de épocas e
países diferentes.
Pegou a foto e examinou. Era legítima, não tinha indícios de
fraude ou manipulação digital e era uma foto antiga, com certeza!
Ao perguntar o preço, o dono da barraca disse que essa foto era
brinde. Ela pagaria pelas outras que tinha escolhido, mas esta seria um
presente, já que a fascinara tanto. Ela agradeceu, pagou as compras e seguiu
para o hotel.
Ainda passou mais dois dias em Nova Orleans antes de voltar
pra casa. A foto ficou guardada junto com as outras aquisições da viagem
durante esse tempo.
De volta ao Brasil, desfazendo as malas, reencontrou a foto.
E novamente ficou fascinada, como se a visse pela primeira vez. Ficou ali
parada, olhando para ela, por alguns minutos. Então retomou o trabalho de
desfazer as malas.
Mais tarde, pegou novamente a foto. Pretendia analisar
friamente a possibilidade de ser uma fraude, procurar indícios, mas não
conseguiu. Seus olhos eram sempre atraídos para o homem no centro da imagem.
Negro, alto, magro. Um olhar perdido, mas uma postura totalmente dominante. Era
como se todo aquele grupo – ela contou vinte e três pessoas – estivesse ali sob
seu comando.
Dormiu com a foto ao lado da cama.
Acordou sentindo-se muito cansada no dia seguinte, mas afinal
tinha encarado horas de viagem na véspera. Ficou em casa o dia todo, lavando as
roupas usadas, arrumando as coisas que tinha comprado, embrulhando os presentes
que trouxe para os amigos. Mas, volta e meia, pegava a foto e se perdia no
tempo olhando para ela.
Novamente adormeceu com a foto ao lado da cama. Novamente
acordou sentindo-se cansada. E o dia transcorreu como o anterior.
No terceiro dia, já não tinha mais nada para arrumar. Mas o
cansaço beirava o esgotamento e então ela ficou em casa. A foto sempre por
perto, a fascinação crescendo cada vez mais.
No quarto dia, o esgotamento era mental também. Estava tonta
e sonolenta. Imaginou que pudesse estar gripada ou até com alguma doença mais
séria, mas não conseguiu forças para ir até o hospital.
Teve a sensação de que estava se desintegrando e, com isso,
achou que realmente estava doente... da cabeça! Talvez estivesse viajando
muito, enfrentando muitas mudanças de fuso horário em curtos espaços de tempo.
Precisava descansar.
Tomou um banho bem demorado e deixou a água correr pelos
longos cabelos castanhos. Vestiu uma camisola de ursinhos, sua preferida, a
mais confortável que tinha. Por algum motivo, checou o crucifixo que usava no
peito. Ele estava lá.
Deitou na cama e pegou a foto. Seus olhos focaram no homem.
Pela primeira vez, conseguiu distinguir claramente os olhos dele. Brancos.
Leitosos. Aparentemente cegos.
No dia seguinte, ela não acordou. Não estava no apartamento,
nem em nenhum outro lugar. Uma semana se passou até que os amigos resolvessem
por fim chamar a polícia e entrar em sua casa. Tudo estava como ela havia
deixado. Mas não havia ninguém. E a foto não estava na cama.
Meses depois, ele chegava a Nova Orleans. Tinha uma
verdadeira paixão por fotos antigas. E rodava o mundo atrás de feiras de
antiguidades e mercados de pulgas que as vendessem.
Então, numa feira, uma barraca o encantou. Um homem negro,
alto, com uma barba branca a comandava. Seus olhos eram estranhos, pareciam
cegos. Usava um chapéu de bruxo? Parecia ser. Apesar de tudo, era bem simpático
e ele se sentiu confortável ali, conversando com o homem.
Os artigos variavam entre porcelanas antigas, velas, ervas e
fotos. Fotos antigas! Logo foi atraído por uma foto em particular. Um grupo de
vinte e quatro pessoas posava com um homem ao centro, em frente ao que parecia
ser uma floresta. Uma névoa parecia envolver o grupo, que era bem inusitado.
Apesar da foto aparentemente ser bem antiga, as pessoas estavam todas usando
roupas de dormir e pareciam saídas de países e tempos diferentes.
Bem à frente, estava uma moça que ele poderia ter encontrado
na rua, ali, agora. Seus cabelos eram longos cabelos e escuros, e vestia uma
camisola curta estampada com o que pareciam ser ursinhos. No peito, algo que
parecia ser um crucifixo refletia um pouco de luz. Ela definitivamente não
tinha a mesma idade da foto.
Tentou analisar com calma, mas seus olhos voltaram para o
homem no centro da foto e fixaram-se ali.
Encantado, ele levou a foto. Ganhou como um brinde, do
simpático dono da barraca.
domingo, 19 de janeiro de 2014
Desconhecido
Havia um tempo se sentia estranha. Não conseguia definir bem
o que era. Algo como uma presença, uma sombra, um cheiro... algo que a
acompanhava, mas que ela não via ou ouvia. Apenas sentia.
Sentia calafrios. Sentia um frio congelante mesmo quando o
sol brilhava lá no céu. Nessas horas, ficava com medo. Não acreditava no
sobrenatural, mas não controlava o medo quando sentia algo que parecia uma mão
tocando seus cabelos muito de leve. Quem controlaria?
Começou a ter medo de escuro. Que infantil! Mas no escuro a
presença era mais forte. Quando apagava as luzes da casa e ia se deitar, quase
podia sentir alguém a acompanhando e deitando na cama com ela. Quase ouvia os
passos, a respiração. Sentia a respiração na sua nuca!
Achou que estava ficando louca, mas não teve coragem de
procurar ajuda. Era médica, respeitada como uma autoridade no campo da
neurologia. Era professora de uma grande universidade, autora de diversas
teses. Como poderia ser louca?
Achou que era o excesso de trabalho. O estresse de manter um
consultório, algumas turmas na faculdade e ainda ser a neurologista chefe e acompanhar
residentes num hospital. Andava dormindo pouco, comendo pouco. Era isso!
Mas, conforme o tempo passava, mesmo tentando não dar
importância àquilo, a presença ficava mais forte. Ficava palpável.
Então começou. Primeiro foi a luz piscando. Trocou a
lâmpada, claro! Mas continuou a piscar. Estava tão cansada que simplesmente
considerou que era algum problema elétrico, que ela veria depois. Apagou a luz
e foi dormir.
Mal tinha pegado no sono quando ouviu um ruído bem baixinho,
irreconhecível. Despertou, mas não levantou da cama. Apenas apurou a audição,
tentando identificar de onde vinha. De repente, se deu conta de que o rádio
estava ligado. O ruído vinha dali, como se alguém estivesse tentando sintonizar
em alguma estação. Aquele chiado, vozes cortadas, zumbidos. E foi ficando mais
alto, mais alto, e as vozes não pareciam músicas ou locutores comuns. Não
pareciam falar português. Ela pulou da cama e desligou o rádio.
E então um calafrio correu por sua espinha. A voz que
acabara de escutar e o modo como falava, a “língua” que falava... ela já tinha
ouvido isso antes! Então lembrou.
Cerca de dois meses antes um paciente tinha dado entrada no
hospital. Ninguém sabia de onde tinha vindo ou como chegara ali. Apenas
apareceu na porta. Era um homem branco, por volta dos quarenta anos, sem
nenhuma identificação. Não usava roupas e estava em aparente estado de coma. Tinha
a pele pintada com o próprio sangue, formando uns símbolos que ninguém conseguiu
identificar e algumas feridas pelo corpo que pareciam ter sido causadas por uma
faca ou punhal. Apesar de parecer estar em coma, suas ondas cerebrais não
condiziam com o esperado, estavam completamente anormais, de um modo que ela
nunca tinha visto. E, vez ou outra, ele revirava os olhos e dizia coisas
ininteligíveis, numa voz sussurrada e rouca. A mesma voz que agora vinha do rádio.
O paciente ficou internado durante um mês sem que ninguém o
identificasse ou conseguisse apresentar um diagnóstico plausível. Ela foi
chamada para trabalhar no caso e se dedicou com afinco. Teve pena daquele homem
que parecia preso no próprio corpo. Passava um bom tempo em seu quarto,
observando. Acabou por criar um laço com ele, uma vontade de ajudá-lo, de vê-lo
livre e vivendo outra vez.
E então ele morreu. Seu coração simplesmente não bateu mais
um dia. Não conseguiram fazer nada para trazê-lo de volta. Foi como se ele “desligasse”.
E isso também ficou sem explicação.
Agora ela se dava conta de que seu tormento começou
coincidentemente após a morte daquele homem.
Então era isso: estava ficando maluca! Não suportou perder
um paciente sem fazer ideia do que aconteceu com ele e do que o levou à morte. Não
suportou ser incapaz de ajudar alguém que lhe pareceu tão desprotegido e
indefeso. Não conseguiu lidar com o fato de que nunca saberiam quem ele era,
nunca poderiam avisar à família. Ele não teria um enterro decente e, agora ela
percebia, se sentia culpada. Porque ela era uma excelente médica e todos sempre
podiam contar com ela. Mas não agora. Não dessa vez.
Estava sentada na cama, olhos vidrados, a mão ainda sobre o
botão do rádio, pensando em tudo isso. Respirou aliviada e foi até a cozinha
para beber um copo d’água. Amanhã seria um novo dia.
Mas então o relógio marcou três horas. E ela ouviu. Era o
som de uma pessoa respirando. Bem perto... bem perto. E tudo ficou escuro como
se sombras a envolvessem. O copo caiu no chão e quebrou e ela não conseguiu ter
a reação de pegá-lo. Estava paralisada e sentia o calor da respiração em sua
nuca. Alguém estava ali!
Tentou rezar, mas seus pensamentos pareciam embaralhados. Seria
o pavor? Sentiu os olhos virarem para cima, bem pra cima. Então veio uma dor
que parecia invadi-la pelas costas e entrar pelo seu corpo, algo a invadindo e
rasgando. Tentou rezar, mas não conseguiu. Tentou gritar, mas não tinha voz.
Então viu sua mão abrindo a gaveta e pegando uma faca. Meu
Deus, o que ela iria fazer? A cada segundo ela descobria uma nova intensidade
de pavor.
Viu sua mão segurar aquela faca afiada e cortar sua pele. Alguns
cortes não muito profundos no braço esquerdo, o sangue escorrendo. Agora ela
queria simplesmente desmaiar. Perder a consciência e então acordar desse
pesadelo. Sim, só poderia ser um pesadelo e ela iria acordar a qualquer
momento!
A mão ergueu a faca e fez um corte no seu peito. As sombras
já a envolviam completamente. E aquela nuvem densa e negra invadiu sua mente. E
vozes, muitas vozes, sussurravam ao seu redor antes que ela apagasse
completamente.
No dia seguinte, os colegas estranharam sua ausência no
trabalho. Ligaram para sua casa, para o celular, mas ninguém atendia. Preocupados,
os três amigos mais próximos foram até o seu prédio. O porteiro garantiu que
ela não havia saído e, como já eram conhecidos, os deixou subir. Tocaram a
campainha, bateram na porta, mas o silêncio no apartamento era absoluto.
Por sorte, uma das amigas tinha a chave e, considerando a
urgência da situação, já que ela nunca faltara um dia de trabalho sem avisar,
eles abriram a porta.
A casa estava quieta e escura. Entraram chamando por ela,
sem resposta. Foram até o quarto, banheiro, e nada. Então entraram na cozinha.
Deitada de costas no chão, sem roupas, pálida, ali estava
ela. O corpo marcado por cortes a faca e símbolos desenhados em sangue. O
estado aparente de coma. Então, abrindo os olhos vidrados e completamente negros,
ela sussurrou palavras ininteligíveis, numa língua desconhecida, com uma voz
rouca e carregada de algo que parecia raiva. O rosto contorcido em uma expressão
assustadora pelo breve momento de seu discurso. O olhar direcionado para a
melhor amiga, aquela que tinha a chave do apartamento e que era a pessoa mais
próxima entre todos os que conhecia.
Seus olhos fecharam, o rosto voltou ao normal, e ela foi
levada assim para o hospital.
Embora já tivessem visto algo parecido antes, nenhum deles
ousou comentar.
quarta-feira, 20 de novembro de 2013
Impossível
Ela nasceu com esta condição rara. Não sabia o significado
de algumas palavras. Era mais do que “não saber”, ela não captava o sentido,
não compreendia mesmo. E, portanto, certas coisas não existiam para ela.
Ela não sabia o que era “impossível”. Nunca entendeu o sentido, o significado dessa palavra, tão repetida à sua volta. Simplesmente não sabia o que era impossível e, por isso, nunca teve medo ou receios. Nunca pensou que pudesse se frustrar, porque tudo sempre poderia acontecer. E assim ela foi vivendo.
Não teve dificuldade de aprender matemática no colégio, porque todos os problemas eram possíveis de resolver. Sabia gramática, história, geografia. Nas aulas de química, era uma das melhores alunas. Aprendeu tudo o que lhe foi ensinado, porque nada era tão difícil que ela não pudesse aprender.
Passou no vestibular em primeiro lugar, porque ela poderia passar, desde que estudasse e foi isso que fez. Entrou para a melhor universidade porque era lá que ela deveria estudar e, claro, ela conseguiria se tentasse.
Teve muitos amigos, porque nunca pensou que seria impossível alguém gostar dela. Foi popular no colégio e na faculdade. Namorou o garoto mais bonito da turma, porque não teve medo de ser rejeitada.
Quando cresceu, ela teve o melhor emprego. Nunca lhe passou pela cabeça que pudesse ser reprovada numa entrevista de seleção e, por isso, sempre se saiu muito bem. Foi contratada e conseguiu todas as promoções que desejou.
Casou-se com um excelente marido, que a amava como ela acreditava merecer. Ele era carinhoso, fiel, companheiro e a tratava como uma princesa. Era o único tipo de marido que ela conhecia e, como não poderia ser diferente para ela, o casamento foi assim, perfeito.
Seus filhos eram lindos e saudáveis. Eram bem educados, estudiosos e obstinados. Bons filhos e boas pessoas, como havia de ser. Foram crianças maravilhosas e se tornaram adultos dos quais ela se orgulhava.
Ela envelheceu com saúde e disposição. Conquistou muitas coisas e conseguiu realizar muitos sonhos. Teve a melhor casa, o melhor carro, comeu as melhores comidas e viajou para os melhores lugares. E tudo correu sempre perfeitamente bem, pois não poderia ser diferente.
Um dia, ela desejou caminhar sobre as nuvens. Estava deitada em sua cama, olhando através da janela. O dia estava ensolarado, o céu azul claro, mas com densas nuvens brancas. Deve ser uma delícia correr ali, ela pensou. Fechou os olhos e, segundos mais tarde, lá estava ela. Livre, leve, feliz. Caminhando sobre as nuvens.
Ela não sabia o que era “impossível”. Nunca entendeu o sentido, o significado dessa palavra, tão repetida à sua volta. Simplesmente não sabia o que era impossível e, por isso, nunca teve medo ou receios. Nunca pensou que pudesse se frustrar, porque tudo sempre poderia acontecer. E assim ela foi vivendo.
Não teve dificuldade de aprender matemática no colégio, porque todos os problemas eram possíveis de resolver. Sabia gramática, história, geografia. Nas aulas de química, era uma das melhores alunas. Aprendeu tudo o que lhe foi ensinado, porque nada era tão difícil que ela não pudesse aprender.
Passou no vestibular em primeiro lugar, porque ela poderia passar, desde que estudasse e foi isso que fez. Entrou para a melhor universidade porque era lá que ela deveria estudar e, claro, ela conseguiria se tentasse.
Teve muitos amigos, porque nunca pensou que seria impossível alguém gostar dela. Foi popular no colégio e na faculdade. Namorou o garoto mais bonito da turma, porque não teve medo de ser rejeitada.
Quando cresceu, ela teve o melhor emprego. Nunca lhe passou pela cabeça que pudesse ser reprovada numa entrevista de seleção e, por isso, sempre se saiu muito bem. Foi contratada e conseguiu todas as promoções que desejou.
Casou-se com um excelente marido, que a amava como ela acreditava merecer. Ele era carinhoso, fiel, companheiro e a tratava como uma princesa. Era o único tipo de marido que ela conhecia e, como não poderia ser diferente para ela, o casamento foi assim, perfeito.
Seus filhos eram lindos e saudáveis. Eram bem educados, estudiosos e obstinados. Bons filhos e boas pessoas, como havia de ser. Foram crianças maravilhosas e se tornaram adultos dos quais ela se orgulhava.
Ela envelheceu com saúde e disposição. Conquistou muitas coisas e conseguiu realizar muitos sonhos. Teve a melhor casa, o melhor carro, comeu as melhores comidas e viajou para os melhores lugares. E tudo correu sempre perfeitamente bem, pois não poderia ser diferente.
Um dia, ela desejou caminhar sobre as nuvens. Estava deitada em sua cama, olhando através da janela. O dia estava ensolarado, o céu azul claro, mas com densas nuvens brancas. Deve ser uma delícia correr ali, ela pensou. Fechou os olhos e, segundos mais tarde, lá estava ela. Livre, leve, feliz. Caminhando sobre as nuvens.
domingo, 29 de julho de 2012
O Velho
A noite estava fria e escura. Estava deitado no sofá,
enrolado no edredom, assistindo televisão. Apesar do frio, aquela noite lhe
parecia agradável.
Então, a campainha tocou. Ficou aborrecido por alguém
estragar o seu sossego, sua noite perfeita, relaxante, depois de um longo dia
de trabalho. Pensou em não atender, mas a pessoa insistiu. Resolveu ver quem
era.
Olhou pela janela e, lá embaixo, em frente ao seu portão,
estava um senhor de idade. O velhinho parecia pobre, suas roupas estavam
rasgadas e ele tremia de frio. Sentiu-se culpado e resolveu descer.
Quando abriu o portão, sentiu pena do velho. Ele parecia
realmente frágil e faminto. Numa voz que mal se podia ouvir, perguntou se ele
poderia lhe oferecer algo para comer. Disse que não tinha onde dormir, não
tinha agasalhos e estava faminto.
Nunca foi um sujeito muito caridoso, mas algo no olhar
daquele velhinho tocou seu coração. Lembrou que sua empregada tinha preparado
uma sopa de ervilhas e que tinha sobrado um pouco. Achou que não teria problema
se o velho se acomodasse na varanda e ele lhe servisse um prato de sopa.
Ao ouvir a oferta, o mendigo pareceu incrédulo. Disse que
não precisava entrar na casa, que bastava a sopa, ele encontraria abrigo em
algum lugar. A simplicidade e humildade daquelas palavras tocaram seu coração e
ele insistiu para que o velho entrasse e se acomodasse numa das poltronas da
varanda.
Subiu, esquentou a sopa, serviu numa bandeja com um pedaço
de pão, pegou um edredom velho e levou tudo para o seu “hóspede”. O velhinho
ficou muito feliz e grato, se enrolou no edredom e começou a tomar a sopa com
muito prazer, como se aquilo fosse um banquete. Tocado pela cena, ele se sentou
na cadeira ao lado e começou a conversar, querendo conhecer a história daquela
pessoa que, de alguma maneira, conseguiu despertar seu senso de caridade.
Conversaram durante um bom tempo. O velho terminou a sopa, o
pão, bebeu água. Parecia realmente inofensivo, e ele resolveu oferecer o abrigo
da varanda para que seu hóspede passasse a noite. Poderia dormir num
confortável sofá de futon, ficaria abrigado do frio e da chuva, e estaria em
segurança. Pela manhã, poderia tomar um café e então seguir sua vida.
O velhinho ficou muito agradecido. Lágrimas brotavam de seus
olhos, enquanto ele repetia bênçãos ao seu “salvador”. Foi até o sofá,
mancando, e se deitou bem devagarinho, tentando se cobrir com o edredom. Diante
da dificuldade do velho, ele resolveu ajudá-lo a se cobrir. E, num gesto
completamente surpreendente, até para si mesmo, abaixou para beijar sua testa.
Então, o velho passou os braços em volta do seu pescoço e o
abraçou apertado. Surpreso, ele retribuiu o abraço, até sentir uma ardência no
pescoço. Então, já era tarde demais... as presas já estavam cravadas na sua
jugular e tudo era escuridão.
Ali, naquela noite fria e escura, o corpo do velho secou
como a folha que cai de uma árvore no outono, enquanto o homem que o acolheu
renascia como jamais pensou ser possível.
quinta-feira, 26 de julho de 2012
A Casa
Morava ali não havia muito tempo quando aquelas coisas
estranhas começaram a acontecer. No início, achou que era o cansaço. Vinha
trabalhando muito, as coisas no escritório estavam pegando fogo. Quase não
dormia, acordava muito cedo, mal tinha tempo de comer. É fácil confundir a
realidade quando a mente está tão cansada.
Mas aí o tempo passou e as coisas começaram a melhorar. Veio um feriado daqueles ótimos pra descansar e ela dormiu bem, colocou a cabeça no lugar. Estava renovada quando, na segunda noite daquele feriadão perfeito, escutou os tais barulhos que a incomodavam. E agora não tinha desculpa. Estava mesmo ouvindo alguma coisa.
Não é que fosse uma coisa sobrenatural. Parecia mais com ratos, talvez. Era um som de alguma coisa roçando no chão? Na parede? No teto? Talvez fossem morcegos presos entre o telhado e o teto da casa...
Resolveu levantar da cama e investigar. Queria saber de onde o som vinha.
Andou pela casa inteira, mas aqueles barulhos pareciam ecos, vindos de todos os lugares ao mesmo tempo. Com o tempo, o som foi ficando mais definido e, com isso, mais parecido com o arrastar de pés. Talvez estivesse com medo. Talvez estivesse imaginando coisas.
Parou, respirou. Tentou aguçar a audição ao máximo, e então conseguiu perceber a origem daquele barulho, que ficava cada vez mais alto. Ouvia gemidos e vozes abafadas vindo de uma parede?! Agora não parecia mais sonho, parecia bem real e estranho. Ela sabia que estava acordada e lúcida.
Foi para a área de serviço da casa, guiada pela audição. O barulho era cada vez alto e claro. Ouvia lamentos, passos, vozes. Quanto mais se aproximava da parede do fundo da despensa, mais certeza tinha de que era dali que o som vinha. Tocou a parede. Podia sentir uma vibração vindo de dentro dela, como se fosse oca. Nunca tinha reparado naquilo, mas agora percebia que aquela parede era bem fina. Socou e pareceu apenas madeira.
O desespero a dominava com tanta intensidade que ela deixou a razão de lado. Pegou um martelo e começou a bater na parede, abrindo um buraco. Então vieram os gritos e ela quase foi jogada pra trás por sombras que pareciam ter a densidade de corpos. Aquelas coisas vinham em sua direção numa atitude de súplica. Seu coração batia acelerado e sua respiração já falhava, quando tomou coragem para continuar. Acabou de derrubar a parede e entrou num cubículo escuro, em meio àquelas sombras.
A luz da despensa penetrou o lugar, para revelar um amontoado de corpos decompostos, alguns dos quais já desfeitos em restos de ossos.
Mas aí o tempo passou e as coisas começaram a melhorar. Veio um feriado daqueles ótimos pra descansar e ela dormiu bem, colocou a cabeça no lugar. Estava renovada quando, na segunda noite daquele feriadão perfeito, escutou os tais barulhos que a incomodavam. E agora não tinha desculpa. Estava mesmo ouvindo alguma coisa.
Não é que fosse uma coisa sobrenatural. Parecia mais com ratos, talvez. Era um som de alguma coisa roçando no chão? Na parede? No teto? Talvez fossem morcegos presos entre o telhado e o teto da casa...
Resolveu levantar da cama e investigar. Queria saber de onde o som vinha.
Andou pela casa inteira, mas aqueles barulhos pareciam ecos, vindos de todos os lugares ao mesmo tempo. Com o tempo, o som foi ficando mais definido e, com isso, mais parecido com o arrastar de pés. Talvez estivesse com medo. Talvez estivesse imaginando coisas.
Parou, respirou. Tentou aguçar a audição ao máximo, e então conseguiu perceber a origem daquele barulho, que ficava cada vez mais alto. Ouvia gemidos e vozes abafadas vindo de uma parede?! Agora não parecia mais sonho, parecia bem real e estranho. Ela sabia que estava acordada e lúcida.
Foi para a área de serviço da casa, guiada pela audição. O barulho era cada vez alto e claro. Ouvia lamentos, passos, vozes. Quanto mais se aproximava da parede do fundo da despensa, mais certeza tinha de que era dali que o som vinha. Tocou a parede. Podia sentir uma vibração vindo de dentro dela, como se fosse oca. Nunca tinha reparado naquilo, mas agora percebia que aquela parede era bem fina. Socou e pareceu apenas madeira.
O desespero a dominava com tanta intensidade que ela deixou a razão de lado. Pegou um martelo e começou a bater na parede, abrindo um buraco. Então vieram os gritos e ela quase foi jogada pra trás por sombras que pareciam ter a densidade de corpos. Aquelas coisas vinham em sua direção numa atitude de súplica. Seu coração batia acelerado e sua respiração já falhava, quando tomou coragem para continuar. Acabou de derrubar a parede e entrou num cubículo escuro, em meio àquelas sombras.
A luz da despensa penetrou o lugar, para revelar um amontoado de corpos decompostos, alguns dos quais já desfeitos em restos de ossos.
sábado, 21 de julho de 2012
O Presente
Estavam casados há oito anos e, há pelo menos cinco, tentavam
desesperadamente ter um filho. Eram apaixonados e felizes, tinham conquistado
muitas coisas juntos, e queriam mais. Queriam dar mais um passo, queriam
concretizar e eternizar seu amor numa vida que surgiria de sua união.
Apesar do tempo, ainda viviam em clima de lua-de-mel. Mas a frustração começava a tomar conta de seus corações depois de tantas tentativas fracassadas. Buscaram ajuda de vários especialistas, fizeram os mais modernos tratamentos, e nada acontecia... Começam a cogitar a adoção, mas queriam tanto um fruto gerado de seu amor...
Então, depois de tanto tempo, decidiram que aquele seria o último ano. Fariam de tudo durante aqueles doze meses. Caso não desse certo, logo em janeiro procurariam entrar na fila de adoção. Estava combinado.
E foi logo no começo do ano, num dia ensolarado, quando passeavam por um parque, que aconteceu o que parecia ser um milagre. Passaram por uma cigana, dessas que ficam perambulando por lugares públicos, à procura de alguém que aceite seus serviços. Como a maior parte das pessoas, sempre desviavam. Mas a cigana foi mais rápida e segurou a mão dela. O marido olhou, em tom de repreensão, mas a cigana se apressou em declarar que eles queriam muito um filho, mas todas as tentativas tinham fracassado. Disse que tinha a solução para eles.
O casal trocou um olhar e ambos perceberam aquilo como um sinal divino. Em outras circunstâncias, não teriam dado atenção. Mas o desespero tomava conta de seus corações e eles precisavam de algo no que acreditar. Pararam para ouvir a cigana.
A mulher parecia idosa, usava um traje bastante tradicional, com lenços, colares, pulseiras e vários anéis. Seu olhar parecia cansado e sábio. Olhos de quem já tinha vivido muito e visto muita coisa. Algo nela despertava confiança e logo sentiram-se totalmente seduzidos pela senhora que parecia enviada para acabar com seus problemas.
Depois de segurar as mãos do casal por um tempo que lhes pareceu um tanto longo, a cigana examinou suas linhas e tocou suas testas. Então, entregou-lhes um cartão que continha um nome e um endereço. Disse-lhes que era seu mestre, um homem muito sábio, uma espécie de mago, capaz de preparar poções e rituais para as mais diversas finalidades. Ele não tinha telefone e não necessitavam marcar consulta. Bastava aparecer no endereço do cartão e Shmael os atenderia.
Continuaram o passeio evitando o assunto, mas logo o dia ensolarado perdeu a graça e tudo o que queriam era discutir sobre o que tinha acabado de acontecer. Voltaram pra casa e só então começaram a digerir as informações. Era inegável que a mulher tinha algum dom. Acertou tudo o que se propôs a adivinhar. Transmitia confiança e bondade. Mas tudo era estranho demais para ser verdade.
- E se for Deus atendendo às nossas preces? E se for assim que Ele trabalha, através de pessoas que estão por aí, ao nosso alcance? – ela perguntou, com lágrimas nos olhos.
Ele não estava convencido, mas não queria contrariar sua esposa, já tão fragilizada. Combinaram que, no próximo sábado, logo pela manhã, iriam ao tal endereço. Afinal, não custava arriscar.
A semana demorou a passar. Ambos estavam mergulhados em ansiedade e mal conseguiam se concentrar nos seus trabalhos e afazeres cotidianos. Então, sábado chegou. Ela foi a primeira a acordar. Mal dormiu, para falar a verdade. Logo em seguida ele acordou e lhe ofereceu um sorriso. Tomaram o café da manhã em silêncio, se arrumaram e seguiram para o endereço do cartão, ao encontro do tal Shmael, sua última esperança.
O endereço era em um bairro afastado do centro, a caminho da região mais “rural” da cidade. Em determinado ponto, precisaram sair da rodovia principal e pegar uma estrada de terra batida. No final da estrada, para sua surpresa, erguia-se uma enorme mansão.
À distância, a casa parecia ter uns três andares e centenas de metros quadrados. Ficava atrás de um pesado portão de ferro. Estava em perfeitas condições e não se encaixava naquela vizinhança simples, por assim dizer.
Seguiram de carro até o portão, onde ele saltou. Encontrou uma espécie de interfone no portão e apertou o botão. Uma voz cavernosa perguntou o que desejava. Ele se apresentou e a voz respondeu que Shmael os esperava, que o portão seria aberto para que seguissem de carro até a entrada principal da casa. E assim fizeram.
Quando saltaram do carro, um homem já os esperava na porta. Era alto, magro, usava um terno preto todo trabalhado com bordados e brilhos. Os cabelos lisos e negros estavam presos numa trança e um lenço estampado em tons de roxo e vermelho caía sobre seus ombros. Seu olhar era penetrante e, ao mesmo tempo, parecia vazio. Era difícil determinar sua idade. Ele sorria.
- Olá. Sou Shmael. Carmita me falou sobre vocês e creio ter a solução. Entrem e, por favor, sintam-se em casa.
Algo naquela voz era assustador e sedutor ao mesmo tempo. Sentiam-se como que hipnotizados. Entreolharam-se desconfiados num primeiro momento, mas logo deixaram-se envolver pelo encanto do casarão e atravessaram a porta de entrada.
Shmael os guiou até uma enorme e luxuosa sala de estar, onde foram convidados a sentar. O mordomo apareceu oferecendo bebidas, que eles prontamente aceitaram. Então, depois de repetir a história que a cigana lhe contara, com sua voz muito peculiar, aquele estranho homem pediu que contassem sua versão dos fatos.
Carmita havia acertado tudo e só faltavam alguns detalhes que realmente não tinham muita importância. Mesmo assim, repassaram toda a sua história, desde o namoro. Todos os desejos e planos, tentativas e fracassos. Shmael sorria ao lhes dizer que sim, tinha uma solução. Podia garantir que ela sairia dali grávida, mas precisava que confiassem nele. Totalmente.
Pediram um tempo para pensar e foram deixados a sós. Estavam inseguros, mas não queriam perder nenhuma chance. Trocaram um demorado beijo e decidiram que estavam prontos a arriscar qualquer coisa.
Após um tempo, Shmael apareceu na sala. Disseram que estavam prontos e ele pediu que o seguissem até o andar superior.
Lá, foram levados cada um para uma suíte, acompanhados por pessoas vestindo uma longa capa com capuz. Pediram que tirassem as roupas e entrassem numa imensa banheira, cheia de pétalas de flores e cercada por velas. Após algum tempo, foram retirados do banho e untados com um óleo de perfume adocicado. Receberam massagens daquelas pessoas, por todo o corpo e depois foi dado uma espécie de roupão para cada um. Ambos estavam estranhando aquela experiência e estavam inseguros, pois não sabiam o que estava acontecendo no outro quarto. Mas a música suave que vinha de algum lugar indecifrável envolvia suas mentes e foram relaxando cada vez mais.
Antes de poderem sair de seus respectivos quartos, receberam uma taça cheia de um líquido, que foram orientados a beber, sem deixar sobrar nada. O copo dele continha algo parecido com água, mas com um gosto diferente. Sentiu-se meio tonto e desorientado após beber, mas ao mesmo tempo, excitado. O copo dela continha um líquido mais viscoso e era doce. Também se sentiu desorientada e excitada, mas sentiu algo diferente. Um calor invadiu seu corpo e, por alguns momentos, ela perdeu a memória.
Então, finalmente, estavam prontos para o reencontro. Os criados encapuzados os uniram no longo corredor e pediram que dessem as mãos. Assim, seguiram até a última porta, coberta de símbolos dourados que, naquele momento, nenhum dos dois conseguiu decifrar.
O aposento era amplo, parecia coberto de mármore escuro e tinha forma arredondada. No centro, havia uma elevação e, sobre ela, uma espécie de cama com dossel vermelho. Nas paredes, havia tochas presas, velas enfeitavam o chão, ao redor de todo o lugar, e várias daquelas pessoas encapuzadas entoavam cânticos, paradas como estátuas ali dentro.
Shmael surgiu no centro do aposento e os convidou a entrar. Nenhum dos dois sentia-se em condições de avaliar a estranheza do que estava diante de seus olhos. Àquela altura, ambos acreditavam estar num sonho. Sentiam-se leves, prestes a flutuar, e estavam prontos a obedecer qualquer ordem vinda daquela voz distante e peculiar, quase uma melodia aos seus ouvidos.
Entraram, seguiram para a cama e, alheios aos estranhos presentes no aposento, fizeram amor. Imediatamente ela pode sentir que estava grávida. Algo tinha mudado em seu organismo, ela sabia. Dormiram abraçados.
Muitas horas depois, cada um acordou no aposento onde tinham sido preparados anteriormente. Já vestiam suas próprias roupas. Tinham a sensação de ter dormido por várias horas, não conseguiam lembrar muito bem dos detalhes, não entendiam bem aquilo ali, mas a sensação de ter valido a pena os dominava.
Ao mesmo tempo em que um criado abria a porta do quarto dele, outro abria a porta dela, para ajudá-los a levantar, e encaminhá-los até a sala de estar, onde Shmael os aguardava.
- Quanto devemos ao senhor? – ele perguntou, certo de que teria de pagar uma fortuna.
- Por enquanto, nada – respondeu Shmael. – Vocês são um casal muito especial, que me procurou precisando muito de ajuda. Se tudo sair realmente conforme os meus planos, este filho será meu presente para vocês.
Ele ainda insistiu que Shmael aceitasse, pelo menos, o valor relativo aos gastos que teve. Mas lhes foi dito que não se preocupassem e fossem felizes. Com esta benção, partiram para o carro, para a “vida normal” outra vez.
No dia seguinte o teste de gravidez confirmou o que ela já sabia. E, para surpresa do casal, desta vez o bebê sobreviveu. A gravidez transcorreu sem problemas e eles experimentaram uma felicidade que havia muito não sentiam.
Foi só durante a última ultrassonografia antes do parto que experimentaram mais uma vez a apreensão: aparentemente o bebê tinha alguma má formação no crânio, que fazia com que seu formato fosse um pouco diferente do normal mas, o médico garantiu, não era nada grave nem nada que afetaria seu desenvolvimento. Talvez até fosse naturalmente corrigido com o tempo, afinal parecia se tratar de um problema puramente estético. Acreditaram que isso era pouco para estragar sua felicidade. Teriam um filho, afinal, e nada poderia diminuir sua alegria.
Então, chegou o dia do parto. A bolsa estourou e eles correram para a maternidade, radiantes. Ela foi preparada e levada para a sala de cirurgia. Ele a acompanhou, câmera na mão e um sorriso enorme estampado no rosto. Médico, enfermeiros, assistentes, anestesista, todos estavam a postos. Tudo pronto para o que seria o dia mais feliz da vida deles.
A cabecinha do bebê coroou, ela fez força, empurrou, o médico delicadamente puxou e ele filmou quando aquela criaturinha saiu do ventre da sua esposa, coberta de placenta, sangue e tudo aquilo que um parto envolve. Estava tudo perfeito.
Foi só quando o bebê foi colocado ao lado da mãe, depois de uma rápida limpeza, que eles perceberam: além do cordão umbilical, um outro “fio” saía da criança, mais precisamente da altura de seu cóccix. A pequena deformação no seu crânio, na verdade, eram dois pequenos chifres. Seus olhos eram vermelhos como o sangue e fitavam a mãe com uma intensidade da qual bebês não são capazes. Quando abriu a pequena boquinha, notaram que já tinha dentes, bastante afiados.
Chocados, todos ficaram paralisados. O pai deixou cair a câmera, o médico largou a tesoura, os enfermeiros afastaram-se. Em questão de segundos, onde antes havia o rosto da mãe, agora só se via uma poça de sangue.
Apesar do tempo, ainda viviam em clima de lua-de-mel. Mas a frustração começava a tomar conta de seus corações depois de tantas tentativas fracassadas. Buscaram ajuda de vários especialistas, fizeram os mais modernos tratamentos, e nada acontecia... Começam a cogitar a adoção, mas queriam tanto um fruto gerado de seu amor...
Então, depois de tanto tempo, decidiram que aquele seria o último ano. Fariam de tudo durante aqueles doze meses. Caso não desse certo, logo em janeiro procurariam entrar na fila de adoção. Estava combinado.
E foi logo no começo do ano, num dia ensolarado, quando passeavam por um parque, que aconteceu o que parecia ser um milagre. Passaram por uma cigana, dessas que ficam perambulando por lugares públicos, à procura de alguém que aceite seus serviços. Como a maior parte das pessoas, sempre desviavam. Mas a cigana foi mais rápida e segurou a mão dela. O marido olhou, em tom de repreensão, mas a cigana se apressou em declarar que eles queriam muito um filho, mas todas as tentativas tinham fracassado. Disse que tinha a solução para eles.
O casal trocou um olhar e ambos perceberam aquilo como um sinal divino. Em outras circunstâncias, não teriam dado atenção. Mas o desespero tomava conta de seus corações e eles precisavam de algo no que acreditar. Pararam para ouvir a cigana.
A mulher parecia idosa, usava um traje bastante tradicional, com lenços, colares, pulseiras e vários anéis. Seu olhar parecia cansado e sábio. Olhos de quem já tinha vivido muito e visto muita coisa. Algo nela despertava confiança e logo sentiram-se totalmente seduzidos pela senhora que parecia enviada para acabar com seus problemas.
Depois de segurar as mãos do casal por um tempo que lhes pareceu um tanto longo, a cigana examinou suas linhas e tocou suas testas. Então, entregou-lhes um cartão que continha um nome e um endereço. Disse-lhes que era seu mestre, um homem muito sábio, uma espécie de mago, capaz de preparar poções e rituais para as mais diversas finalidades. Ele não tinha telefone e não necessitavam marcar consulta. Bastava aparecer no endereço do cartão e Shmael os atenderia.
Continuaram o passeio evitando o assunto, mas logo o dia ensolarado perdeu a graça e tudo o que queriam era discutir sobre o que tinha acabado de acontecer. Voltaram pra casa e só então começaram a digerir as informações. Era inegável que a mulher tinha algum dom. Acertou tudo o que se propôs a adivinhar. Transmitia confiança e bondade. Mas tudo era estranho demais para ser verdade.
- E se for Deus atendendo às nossas preces? E se for assim que Ele trabalha, através de pessoas que estão por aí, ao nosso alcance? – ela perguntou, com lágrimas nos olhos.
Ele não estava convencido, mas não queria contrariar sua esposa, já tão fragilizada. Combinaram que, no próximo sábado, logo pela manhã, iriam ao tal endereço. Afinal, não custava arriscar.
A semana demorou a passar. Ambos estavam mergulhados em ansiedade e mal conseguiam se concentrar nos seus trabalhos e afazeres cotidianos. Então, sábado chegou. Ela foi a primeira a acordar. Mal dormiu, para falar a verdade. Logo em seguida ele acordou e lhe ofereceu um sorriso. Tomaram o café da manhã em silêncio, se arrumaram e seguiram para o endereço do cartão, ao encontro do tal Shmael, sua última esperança.
O endereço era em um bairro afastado do centro, a caminho da região mais “rural” da cidade. Em determinado ponto, precisaram sair da rodovia principal e pegar uma estrada de terra batida. No final da estrada, para sua surpresa, erguia-se uma enorme mansão.
À distância, a casa parecia ter uns três andares e centenas de metros quadrados. Ficava atrás de um pesado portão de ferro. Estava em perfeitas condições e não se encaixava naquela vizinhança simples, por assim dizer.
Seguiram de carro até o portão, onde ele saltou. Encontrou uma espécie de interfone no portão e apertou o botão. Uma voz cavernosa perguntou o que desejava. Ele se apresentou e a voz respondeu que Shmael os esperava, que o portão seria aberto para que seguissem de carro até a entrada principal da casa. E assim fizeram.
Quando saltaram do carro, um homem já os esperava na porta. Era alto, magro, usava um terno preto todo trabalhado com bordados e brilhos. Os cabelos lisos e negros estavam presos numa trança e um lenço estampado em tons de roxo e vermelho caía sobre seus ombros. Seu olhar era penetrante e, ao mesmo tempo, parecia vazio. Era difícil determinar sua idade. Ele sorria.
- Olá. Sou Shmael. Carmita me falou sobre vocês e creio ter a solução. Entrem e, por favor, sintam-se em casa.
Algo naquela voz era assustador e sedutor ao mesmo tempo. Sentiam-se como que hipnotizados. Entreolharam-se desconfiados num primeiro momento, mas logo deixaram-se envolver pelo encanto do casarão e atravessaram a porta de entrada.
Shmael os guiou até uma enorme e luxuosa sala de estar, onde foram convidados a sentar. O mordomo apareceu oferecendo bebidas, que eles prontamente aceitaram. Então, depois de repetir a história que a cigana lhe contara, com sua voz muito peculiar, aquele estranho homem pediu que contassem sua versão dos fatos.
Carmita havia acertado tudo e só faltavam alguns detalhes que realmente não tinham muita importância. Mesmo assim, repassaram toda a sua história, desde o namoro. Todos os desejos e planos, tentativas e fracassos. Shmael sorria ao lhes dizer que sim, tinha uma solução. Podia garantir que ela sairia dali grávida, mas precisava que confiassem nele. Totalmente.
Pediram um tempo para pensar e foram deixados a sós. Estavam inseguros, mas não queriam perder nenhuma chance. Trocaram um demorado beijo e decidiram que estavam prontos a arriscar qualquer coisa.
Após um tempo, Shmael apareceu na sala. Disseram que estavam prontos e ele pediu que o seguissem até o andar superior.
Lá, foram levados cada um para uma suíte, acompanhados por pessoas vestindo uma longa capa com capuz. Pediram que tirassem as roupas e entrassem numa imensa banheira, cheia de pétalas de flores e cercada por velas. Após algum tempo, foram retirados do banho e untados com um óleo de perfume adocicado. Receberam massagens daquelas pessoas, por todo o corpo e depois foi dado uma espécie de roupão para cada um. Ambos estavam estranhando aquela experiência e estavam inseguros, pois não sabiam o que estava acontecendo no outro quarto. Mas a música suave que vinha de algum lugar indecifrável envolvia suas mentes e foram relaxando cada vez mais.
Antes de poderem sair de seus respectivos quartos, receberam uma taça cheia de um líquido, que foram orientados a beber, sem deixar sobrar nada. O copo dele continha algo parecido com água, mas com um gosto diferente. Sentiu-se meio tonto e desorientado após beber, mas ao mesmo tempo, excitado. O copo dela continha um líquido mais viscoso e era doce. Também se sentiu desorientada e excitada, mas sentiu algo diferente. Um calor invadiu seu corpo e, por alguns momentos, ela perdeu a memória.
Então, finalmente, estavam prontos para o reencontro. Os criados encapuzados os uniram no longo corredor e pediram que dessem as mãos. Assim, seguiram até a última porta, coberta de símbolos dourados que, naquele momento, nenhum dos dois conseguiu decifrar.
O aposento era amplo, parecia coberto de mármore escuro e tinha forma arredondada. No centro, havia uma elevação e, sobre ela, uma espécie de cama com dossel vermelho. Nas paredes, havia tochas presas, velas enfeitavam o chão, ao redor de todo o lugar, e várias daquelas pessoas encapuzadas entoavam cânticos, paradas como estátuas ali dentro.
Shmael surgiu no centro do aposento e os convidou a entrar. Nenhum dos dois sentia-se em condições de avaliar a estranheza do que estava diante de seus olhos. Àquela altura, ambos acreditavam estar num sonho. Sentiam-se leves, prestes a flutuar, e estavam prontos a obedecer qualquer ordem vinda daquela voz distante e peculiar, quase uma melodia aos seus ouvidos.
Entraram, seguiram para a cama e, alheios aos estranhos presentes no aposento, fizeram amor. Imediatamente ela pode sentir que estava grávida. Algo tinha mudado em seu organismo, ela sabia. Dormiram abraçados.
Muitas horas depois, cada um acordou no aposento onde tinham sido preparados anteriormente. Já vestiam suas próprias roupas. Tinham a sensação de ter dormido por várias horas, não conseguiam lembrar muito bem dos detalhes, não entendiam bem aquilo ali, mas a sensação de ter valido a pena os dominava.
Ao mesmo tempo em que um criado abria a porta do quarto dele, outro abria a porta dela, para ajudá-los a levantar, e encaminhá-los até a sala de estar, onde Shmael os aguardava.
- Quanto devemos ao senhor? – ele perguntou, certo de que teria de pagar uma fortuna.
- Por enquanto, nada – respondeu Shmael. – Vocês são um casal muito especial, que me procurou precisando muito de ajuda. Se tudo sair realmente conforme os meus planos, este filho será meu presente para vocês.
Ele ainda insistiu que Shmael aceitasse, pelo menos, o valor relativo aos gastos que teve. Mas lhes foi dito que não se preocupassem e fossem felizes. Com esta benção, partiram para o carro, para a “vida normal” outra vez.
No dia seguinte o teste de gravidez confirmou o que ela já sabia. E, para surpresa do casal, desta vez o bebê sobreviveu. A gravidez transcorreu sem problemas e eles experimentaram uma felicidade que havia muito não sentiam.
Foi só durante a última ultrassonografia antes do parto que experimentaram mais uma vez a apreensão: aparentemente o bebê tinha alguma má formação no crânio, que fazia com que seu formato fosse um pouco diferente do normal mas, o médico garantiu, não era nada grave nem nada que afetaria seu desenvolvimento. Talvez até fosse naturalmente corrigido com o tempo, afinal parecia se tratar de um problema puramente estético. Acreditaram que isso era pouco para estragar sua felicidade. Teriam um filho, afinal, e nada poderia diminuir sua alegria.
Então, chegou o dia do parto. A bolsa estourou e eles correram para a maternidade, radiantes. Ela foi preparada e levada para a sala de cirurgia. Ele a acompanhou, câmera na mão e um sorriso enorme estampado no rosto. Médico, enfermeiros, assistentes, anestesista, todos estavam a postos. Tudo pronto para o que seria o dia mais feliz da vida deles.
A cabecinha do bebê coroou, ela fez força, empurrou, o médico delicadamente puxou e ele filmou quando aquela criaturinha saiu do ventre da sua esposa, coberta de placenta, sangue e tudo aquilo que um parto envolve. Estava tudo perfeito.
Foi só quando o bebê foi colocado ao lado da mãe, depois de uma rápida limpeza, que eles perceberam: além do cordão umbilical, um outro “fio” saía da criança, mais precisamente da altura de seu cóccix. A pequena deformação no seu crânio, na verdade, eram dois pequenos chifres. Seus olhos eram vermelhos como o sangue e fitavam a mãe com uma intensidade da qual bebês não são capazes. Quando abriu a pequena boquinha, notaram que já tinha dentes, bastante afiados.
Chocados, todos ficaram paralisados. O pai deixou cair a câmera, o médico largou a tesoura, os enfermeiros afastaram-se. Em questão de segundos, onde antes havia o rosto da mãe, agora só se via uma poça de sangue.
sexta-feira, 13 de julho de 2012
Pata de Bode
Nasci e cresci numa pequena cidade do interior. Ao longo da
minha infância, passava as noites em volta da fogueira, no quintal de casa, com
as outras crianças e os adultos da família e da vizinhança contando histórias e
lendas, tentando nos assustar.
À noite, sem conseguir dormir, resolvi dar uma volta pela vizinhança, como fazia nos velhos tempos. Andei pelo quintal, agora muito mais cheio de mato, bem malcuidado, abandonado. Meu pai não tinha mais forças para trabalhar e tenho a impressão de que a doença de minha mãe drenou o que restava dele.
Sentindo-me cada vez pior, vaguei pelo matagal que crescia nos fundos da casa, indo em direção ao bosque. Ali, sozinho no meio da noite escura, lembrei das fogueiras, das histórias, das lendas. Pensei que não fui um bom menino, um bom filho, e lembrei do Pata de Bode pela primeira vez em anos. E, para minha surpresa, senti medo. Acho que tinha perdido o costume da escuridão e da solidão absolutas. Na cidade sempre havia uma luz, uma TV ligada, alguém por perto, nem que fosse através da internet.
Após um tempo, tive a impressão de estar sendo observado, pensei ter ouvido uma respiração. Por um momento, posso dizer que fiquei apavorado. Então, como homem adulto que era, parei, refleti, e concluí que estava cansado pela viagem e abalado pelos acontecimentos. Estava imaginando coisas e precisava descansar. Voltei para casa e tratei de dormir.
O dia seguinte transcorreu sem grandes acontecimentos. Aproveitei pra rever todos, conversar, tentar me redimir pelo tempo que passei afastado. Fui bem tratado por todos e me senti surpreendentemente feliz, apesar de tudo. Parecia que as coisas iriam ficar bem, afinal.
O céu escureceu, as estrelas brilharam e me lembrei do que se passou na noite anterior. Confesso que, apesar das minhas explicações científicas, fiquei intrigado com a sensação que tive. É lógico que, como morador de cidade grande, a primeira coisa que me passou pela cabeça foi que alguém poderia estar rondando a casa de meus pais, a fim de roubar, talvez, as jóias de família que minha mãe guardava. Achei que valia uma investigação e saí pela noite outra vez.
Muito mais bem equipado desta vez, levei uma lanterna e um cabo de enxada, a única “arma” que encontrei na casa. Olhei toda a extensão do quintal, tentando enxergar o máximo que podia, com a fraca luz da lanterna, e não vi nada que me chamasse a atenção. A curiosidade falou mais alto e, além do mais, eu estava acostumado a dormir de madrugada e não às dez horas da noite! Queria um pouco de emoção. Entrei no bosque.
Novamente tive a sensação de estar sendo observado. Sabe quando você consegue sentir o calor do olhar de alguém na sua pele? Eu sentia isso, como se alguém me olhasse fixamente, mas não conseguia ver nada naquela escuridão. Tive a impressão de ouvir um farfalhar no mato atrás de mim e senti meus pelos crisparem. Tentei mirar a lanterna na direção do barulho, mas parecia estar tudo completamente deserto. Desisti depois de algum tempo, um pouco por desapontamento, um pouco por medo. Não sei dizer qual falou mais alto e me senti um tanto idiota por ser um homem de cinqüenta anos com medo de histórias de criança, mas decidi voltar pra casa e dormir mais uma vez.
Eu deveria partir no terceiro dia, mas decidi ficar mais um pouco. Meu pai estava muito abatido e era nítido que precisava de mim. Achei que poderia, de alguma maneira, compensar os anos que passei afastado. Achei que devia isso à minha mãe, e decidi ficar até o fim da semana.
Na terceira noite, movido por uma curiosidade inexplicável, voltei ao bosque. Tinha chovido um pouco durante o dia e a terra estava fofa. Achei que procurar por pegadas seria um bom começo para a minha investigação.
Estava agachado no chão, analisando umas pegadas muito estranhas que encontrei, quando voltei a sentir o peso daquele olhar sobre mim. Desta vez, ignorei a sensação e continuei a olhar as pegadas, que não eram humanas. Embora fossem obviamente de um bípede, pareciam mais pegadas de cavalo ou outro animal com um formato arredondado de pata.
Não conseguia parar de pensar em todas as histórias que escutei quando criança. Tentei deixar de lado os pensamentos tolos, mas o farfalhar no mato me assustou e virei depressa, apontando a lanterna na direção. Tive a impressão de ver um par de olhos vermelhos. Sentindo-me como que hipnotizado, contrariei o bom senso e caminhei na direção dos olhos, apontando a lanterna.
Ouvi um som estranho um pouco mais adiante. Parecia um relinchar, mas definitivamente não era um cavalo. Ainda estava a uma certa distância da mata fechada quando consegui visualizar o que parecia ser um par de pernas cobertas de pelo de animal. Um pequeno vislumbre me fez pensar num bode e confesso que meu sangue congelou.
Fiquei paralisado até que enxerguei os dois olhos vermelhos me fitando à distância e o que parecia ser parte de um rosto, aparentemente humanóide, mas áspero, vincado, deformado. Neste momento, decidi que precisava correr.
Corri sem parar, ouvindo aquele galopar logo atrás de mim, a respiração pesada, raivosa, e um cheiro horrível se espalhando pelo ar. Alguns metros depois, tropecei e caí. Mal percebi a sombra por cima de mim, quando reuni toda a minha coragem e força para chutar aquela criatura. Só via os olhos vermelhos me fitando de um jeito sinistro. O pânico não me deixou ver mais nada e, assim que a criatura caiu com meu chute, levantei depressa e não parei até chegar ao carro. Por sorte, estava carregando a carteira e as chaves no bolso. Entrei, dei a partida e peguei a estrada sem olhar para trás. Quando chegasse à cidade, ligaria para o meu pai explicando a partida urgente, mas não ficaria mais nem um minuto ali, com o Pata de Bode atrás de mim.
Sempre fui muito arteiro, entrava mato adentro no meio da
noite para pregar peças nos meus amigos, roubar frutas na vizinhança, ou
simplesmente para passear mesmo. O gostinho de perigo e da proibição me atraía.
Adorava desafiar meus pais, fingir que estava dormindo e sair depois que eles
se deitavam. Coisas de criança.
Uma das lendas que nos contavam, dizia que existia um ser maligno
com patas de bode e corpo de homem, que devorava as crianças arteiras à noite.
Confesso que nos primeiros anos de minha infância eu tinha medo. Depois, fui
ficando curioso e cheguei a tentar montar armadilhas para o Pata de Bode com
meus primos e amigos. Nunca o pegamos nem fomos pegos por ele e aquela lenda
foi perdendo o sentido com o tempo. Assumi que era apenas um meio de tentar
controlar as crianças.
Aos dezoito anos deixei o interior para estudar e trabalhar
na cidade grande. Minhas preocupações e medos mudaram, as histórias e lendas
também, e nunca mais pensei no Pata de Bode.
Até que, trinta anos após ter deixado a casa de meus pais,
voltei ao interior pela primeira vez, para o velório de minha mãe. Ao longo
desse tempo, sempre foram meus pais que vieram me visitar na cidade, e eu nunca
mais tinha posto os pés na minha terra natal.
Ainda na estrada que levava à minha antiga cidade, fui
arrebatado por uma emoção estranha. Talvez fosse a tristeza por saber que não
encontraria minha mãe ao chegar. Talvez fosse a saudade dos velhos tempos.
Talvez fosse um certo arrependimento por ter deixado aquilo tudo pra trás com
tanta facilidade. Mas havia algo me incomodando bastante, mesmo que eu não
soubesse exatamente o que era.
Fiquei hospedado na minha antiga casa, no meu antigo quarto,
que ainda conservava o mesmo aspecto de quando o deixei, a não ser por uma ou
outra coisa que tinha sido armazenada ali por falta de espaço no resto da casa.
Acho que minha mãe sempre esperou que eu voltasse um dia, e acabei voltando
tarde demais.
O velório durou o dia inteiro e o enterro foi ao entardecer.
Revi vários parentes e amigos de infância, pessoas que tinha guardado no fundo
da memória, pra não dizer “esquecido”, com minha nova vida, minha nova
realidade.
À noite, sem conseguir dormir, resolvi dar uma volta pela vizinhança, como fazia nos velhos tempos. Andei pelo quintal, agora muito mais cheio de mato, bem malcuidado, abandonado. Meu pai não tinha mais forças para trabalhar e tenho a impressão de que a doença de minha mãe drenou o que restava dele.
Sentindo-me cada vez pior, vaguei pelo matagal que crescia nos fundos da casa, indo em direção ao bosque. Ali, sozinho no meio da noite escura, lembrei das fogueiras, das histórias, das lendas. Pensei que não fui um bom menino, um bom filho, e lembrei do Pata de Bode pela primeira vez em anos. E, para minha surpresa, senti medo. Acho que tinha perdido o costume da escuridão e da solidão absolutas. Na cidade sempre havia uma luz, uma TV ligada, alguém por perto, nem que fosse através da internet.
Após um tempo, tive a impressão de estar sendo observado, pensei ter ouvido uma respiração. Por um momento, posso dizer que fiquei apavorado. Então, como homem adulto que era, parei, refleti, e concluí que estava cansado pela viagem e abalado pelos acontecimentos. Estava imaginando coisas e precisava descansar. Voltei para casa e tratei de dormir.
O dia seguinte transcorreu sem grandes acontecimentos. Aproveitei pra rever todos, conversar, tentar me redimir pelo tempo que passei afastado. Fui bem tratado por todos e me senti surpreendentemente feliz, apesar de tudo. Parecia que as coisas iriam ficar bem, afinal.
O céu escureceu, as estrelas brilharam e me lembrei do que se passou na noite anterior. Confesso que, apesar das minhas explicações científicas, fiquei intrigado com a sensação que tive. É lógico que, como morador de cidade grande, a primeira coisa que me passou pela cabeça foi que alguém poderia estar rondando a casa de meus pais, a fim de roubar, talvez, as jóias de família que minha mãe guardava. Achei que valia uma investigação e saí pela noite outra vez.
Muito mais bem equipado desta vez, levei uma lanterna e um cabo de enxada, a única “arma” que encontrei na casa. Olhei toda a extensão do quintal, tentando enxergar o máximo que podia, com a fraca luz da lanterna, e não vi nada que me chamasse a atenção. A curiosidade falou mais alto e, além do mais, eu estava acostumado a dormir de madrugada e não às dez horas da noite! Queria um pouco de emoção. Entrei no bosque.
Novamente tive a sensação de estar sendo observado. Sabe quando você consegue sentir o calor do olhar de alguém na sua pele? Eu sentia isso, como se alguém me olhasse fixamente, mas não conseguia ver nada naquela escuridão. Tive a impressão de ouvir um farfalhar no mato atrás de mim e senti meus pelos crisparem. Tentei mirar a lanterna na direção do barulho, mas parecia estar tudo completamente deserto. Desisti depois de algum tempo, um pouco por desapontamento, um pouco por medo. Não sei dizer qual falou mais alto e me senti um tanto idiota por ser um homem de cinqüenta anos com medo de histórias de criança, mas decidi voltar pra casa e dormir mais uma vez.
Eu deveria partir no terceiro dia, mas decidi ficar mais um pouco. Meu pai estava muito abatido e era nítido que precisava de mim. Achei que poderia, de alguma maneira, compensar os anos que passei afastado. Achei que devia isso à minha mãe, e decidi ficar até o fim da semana.
Na terceira noite, movido por uma curiosidade inexplicável, voltei ao bosque. Tinha chovido um pouco durante o dia e a terra estava fofa. Achei que procurar por pegadas seria um bom começo para a minha investigação.
Estava agachado no chão, analisando umas pegadas muito estranhas que encontrei, quando voltei a sentir o peso daquele olhar sobre mim. Desta vez, ignorei a sensação e continuei a olhar as pegadas, que não eram humanas. Embora fossem obviamente de um bípede, pareciam mais pegadas de cavalo ou outro animal com um formato arredondado de pata.
Não conseguia parar de pensar em todas as histórias que escutei quando criança. Tentei deixar de lado os pensamentos tolos, mas o farfalhar no mato me assustou e virei depressa, apontando a lanterna na direção. Tive a impressão de ver um par de olhos vermelhos. Sentindo-me como que hipnotizado, contrariei o bom senso e caminhei na direção dos olhos, apontando a lanterna.
Ouvi um som estranho um pouco mais adiante. Parecia um relinchar, mas definitivamente não era um cavalo. Ainda estava a uma certa distância da mata fechada quando consegui visualizar o que parecia ser um par de pernas cobertas de pelo de animal. Um pequeno vislumbre me fez pensar num bode e confesso que meu sangue congelou.
Fiquei paralisado até que enxerguei os dois olhos vermelhos me fitando à distância e o que parecia ser parte de um rosto, aparentemente humanóide, mas áspero, vincado, deformado. Neste momento, decidi que precisava correr.
Corri sem parar, ouvindo aquele galopar logo atrás de mim, a respiração pesada, raivosa, e um cheiro horrível se espalhando pelo ar. Alguns metros depois, tropecei e caí. Mal percebi a sombra por cima de mim, quando reuni toda a minha coragem e força para chutar aquela criatura. Só via os olhos vermelhos me fitando de um jeito sinistro. O pânico não me deixou ver mais nada e, assim que a criatura caiu com meu chute, levantei depressa e não parei até chegar ao carro. Por sorte, estava carregando a carteira e as chaves no bolso. Entrei, dei a partida e peguei a estrada sem olhar para trás. Quando chegasse à cidade, ligaria para o meu pai explicando a partida urgente, mas não ficaria mais nem um minuto ali, com o Pata de Bode atrás de mim.
sábado, 21 de maio de 2011
Terror Branco
Tinham chegado na cidade pela manhã e ansiavam por conhecê-la. Passearam o dia inteiro, afastaram-se do centro e a noite já caía quando notaram uma movimentação tensa no vilarejo ao qual tinham chegado. As pessoas se entreolhavam e procuravam abrigo em suas casas, afoitas, assustadas.
Então, uma mulher os parou. Notou que eram de fora, e correu ao seu socorro. E lhes contou o que parecia ser uma lenda simplesmente inacreditável.
Em algumas noites de inverno, uma névoa fria cobria o vilarejo e trazia uma nevasca amaldiçoada. Quem estivesse nas ruas não sobreviveria. Por isso, quando a temperatura caía ao entardecer, todos no vilarejo procuravam a segurança de suas casas o mais rápido possível.
Eles esperaram a mulher ir embora e riram. Nossa, que povo mais caipira, disseram. Como alguém pode acreditar em maldição nos dias de hoje?
Tentaram continuar seu passeio, procurar algum lugar pra dormir, mas o burburinho nas ruas era grande, ao mesmo tempo em que vilarejo ia se fechando e escurecendo e, de certa forma, tornando-se assustador.
Notaram que as casas eram pequenas e frágeis construções em sua maioria e que as pessoas corriam apenas para as casas mais fortes. Notaram que a escuridão tomava as ruas e um frio quase insuportável chegava soprado pelo vento que vinha da floresta ao redor. Notaram que, por mais absurdo que fosse, talvez houvesse alguma verdade naquela lenda. E, aterrorizados, notaram que não tinham mais pra onde ir.
Paralizados no meio do vilarejo, numa escuridão gelada, sem conseguir enxergar ninguém por perto, procuraram por uma pista, algo que os guiasse até uma saída para aquela situação.
Avistaram, ali da praça principal, um velho casarão que parecia abandonado. As janelas estavam quebradas e parecia possível forçar a porta, abri-la, e talvez passar a noite ali. Mas a imagem do casarão era tão sinistra quando a perspectiva de morrer no meio de uma nevasca amaldiçoada. Enquanto observavam de longe, decidindo o que fazer, tiveram a impressão de ver vultos negros movendo-se através das janelas do casarão.
Sentindo-se completamente perdidos, estavam quase desistindo de tudo, rezando para que tudo aquilo não passasse de um sonho bizarro compartilhado por três amigos, quando um morador local os chamou. Ali perto, uma casinha pequena porém bem construída ainda tinha espaço para mais alguns.
Aceitaram o convite sem saber ao certo o que estavam fazendo. Na verdade, não sabiam nem exatamente onde estavam, já que tinham se afastado da cidade mais do que gostariam e o vilarejo simplesmente não aparecia em seu mapa. Agora poderiam considerar-se oficialmente perdidos.
Dentro da casa, as pessoas aglomeravam-se assustadas, rezando, olhando pelas janelas como quem espera uma tragédia inevitável. E então, uma névoa espessa, branca, cobriu o vilarejo.
Eles não podiam acreditar no que viam. Junto com a névoa um barulho ensurdecedor, como gritos e sussurros, lamentos e choro, gargalhadas e suspiros, tudo ao mesmo tempo, cobriu as ruas do vilarejo. Num instante, todas as janelas estavam fechadas e as pessoas seguravam as mãos umas das outras, orando fervorosamente em uma língua que eles desconheciam.
Após algum tempo que lhes pareceu uma eternidade, renderam-se ao medo e ao cansaço e, abraçados, fecharam os olhos e mergulharam na escuridão.
Despertaram aos primeiros raios de sol que atreveram-se a iluminar a casa pelas frestas das janelas. Todos pareciam despertar ao mesmo tempo. Sentiam-se tontos e não tinham certeza de onde estavam, e demorou algum tempo até que pudessem se localizar no tempo e no espaço.
Então, já de pé, as pessoas começaram a trocar abraços e agradecer por terem sobrevivido. O clima de êxtase tomava conta da pequena casa. A porta foi aberta.
Agradeceram ao dono da casa pela segurança proporcionada, ainda sentindo como se estivessem despertando de um pesadelo. Tudo aquilo parecia tão irreal quanto assutador. Decidiram sair e prosseguir a viagem, o mais rápido possível.
As ruas estavam cobertas por uma expessa camada de neve que começava a derreter. As pessoas corriam, revirando montes de entulho, gritando por nomes, comemorando ou chorando. Olharam em volta. Alguns dos animais que pastavam nos campos na noite anterior, os que não tiveram a sorte de ser recolhidos a tempo, jaziam mortos na neve. E entre eles, parcialmente abrigados por paredes, montes de feno, ou árvores, descobriram vários corpos humanos. Encolhidos em posição fetal, os olhos bem abertos e o rosto tomado por um terror que nunca haviam visto antes.
Então, uma mulher os parou. Notou que eram de fora, e correu ao seu socorro. E lhes contou o que parecia ser uma lenda simplesmente inacreditável.
Em algumas noites de inverno, uma névoa fria cobria o vilarejo e trazia uma nevasca amaldiçoada. Quem estivesse nas ruas não sobreviveria. Por isso, quando a temperatura caía ao entardecer, todos no vilarejo procuravam a segurança de suas casas o mais rápido possível.
Eles esperaram a mulher ir embora e riram. Nossa, que povo mais caipira, disseram. Como alguém pode acreditar em maldição nos dias de hoje?
Tentaram continuar seu passeio, procurar algum lugar pra dormir, mas o burburinho nas ruas era grande, ao mesmo tempo em que vilarejo ia se fechando e escurecendo e, de certa forma, tornando-se assustador.
Notaram que as casas eram pequenas e frágeis construções em sua maioria e que as pessoas corriam apenas para as casas mais fortes. Notaram que a escuridão tomava as ruas e um frio quase insuportável chegava soprado pelo vento que vinha da floresta ao redor. Notaram que, por mais absurdo que fosse, talvez houvesse alguma verdade naquela lenda. E, aterrorizados, notaram que não tinham mais pra onde ir.
Paralizados no meio do vilarejo, numa escuridão gelada, sem conseguir enxergar ninguém por perto, procuraram por uma pista, algo que os guiasse até uma saída para aquela situação.
Avistaram, ali da praça principal, um velho casarão que parecia abandonado. As janelas estavam quebradas e parecia possível forçar a porta, abri-la, e talvez passar a noite ali. Mas a imagem do casarão era tão sinistra quando a perspectiva de morrer no meio de uma nevasca amaldiçoada. Enquanto observavam de longe, decidindo o que fazer, tiveram a impressão de ver vultos negros movendo-se através das janelas do casarão.
Sentindo-se completamente perdidos, estavam quase desistindo de tudo, rezando para que tudo aquilo não passasse de um sonho bizarro compartilhado por três amigos, quando um morador local os chamou. Ali perto, uma casinha pequena porém bem construída ainda tinha espaço para mais alguns.
Aceitaram o convite sem saber ao certo o que estavam fazendo. Na verdade, não sabiam nem exatamente onde estavam, já que tinham se afastado da cidade mais do que gostariam e o vilarejo simplesmente não aparecia em seu mapa. Agora poderiam considerar-se oficialmente perdidos.
Dentro da casa, as pessoas aglomeravam-se assustadas, rezando, olhando pelas janelas como quem espera uma tragédia inevitável. E então, uma névoa espessa, branca, cobriu o vilarejo.
Eles não podiam acreditar no que viam. Junto com a névoa um barulho ensurdecedor, como gritos e sussurros, lamentos e choro, gargalhadas e suspiros, tudo ao mesmo tempo, cobriu as ruas do vilarejo. Num instante, todas as janelas estavam fechadas e as pessoas seguravam as mãos umas das outras, orando fervorosamente em uma língua que eles desconheciam.
Após algum tempo que lhes pareceu uma eternidade, renderam-se ao medo e ao cansaço e, abraçados, fecharam os olhos e mergulharam na escuridão.
Despertaram aos primeiros raios de sol que atreveram-se a iluminar a casa pelas frestas das janelas. Todos pareciam despertar ao mesmo tempo. Sentiam-se tontos e não tinham certeza de onde estavam, e demorou algum tempo até que pudessem se localizar no tempo e no espaço.
Então, já de pé, as pessoas começaram a trocar abraços e agradecer por terem sobrevivido. O clima de êxtase tomava conta da pequena casa. A porta foi aberta.
Agradeceram ao dono da casa pela segurança proporcionada, ainda sentindo como se estivessem despertando de um pesadelo. Tudo aquilo parecia tão irreal quanto assutador. Decidiram sair e prosseguir a viagem, o mais rápido possível.
As ruas estavam cobertas por uma expessa camada de neve que começava a derreter. As pessoas corriam, revirando montes de entulho, gritando por nomes, comemorando ou chorando. Olharam em volta. Alguns dos animais que pastavam nos campos na noite anterior, os que não tiveram a sorte de ser recolhidos a tempo, jaziam mortos na neve. E entre eles, parcialmente abrigados por paredes, montes de feno, ou árvores, descobriram vários corpos humanos. Encolhidos em posição fetal, os olhos bem abertos e o rosto tomado por um terror que nunca haviam visto antes.
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
Sophie
Menina Sophie. Minha doce menina Sophie.
Minha pequena imensa fonte de luz. Meu anjinho que pretendi salvar e onde encontrei minha salvação.
Pedaço do meu coração. Luz da minha vida.
Seu amor me invade e o meu amor por você transborda.
No brilho do seu olhar encontro a minha felicidade. Na sua alegria, uma razão para viver. Na sua existência, encontro tudo.
Minha princesa. Minha estrela mais brilhante. Minha filha.
Minha doce menina Sophie.
Te amo.
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
Muita Areia Pro Meu Caminhãozinho
Ih, ele é muita areia pro meu caminhãozinho! Cansei de dizer quando era mais nova. Quando a insegurança tomava conta de mim ou, pelo menos, era mais forte do que o orgulho.
Quando a maturidade foi chegando e a insegurança foi ficando pra trás, em alguns momentos o orgulho assumiu o controle e me achei muita, muita areia pro caminhãozinho de uns e outros aí.
Quantas vezes pensamos: O que ele viu nela? Essa aí nunca vai dar bola pra você. Não, ele é demais pra mim. Ela só pode estar com ele por dinheiro. Será que algum dia ele vai me notar? E por aí segue uma lista sem fim de perguntas e observações sobre casais, formados ou imaginários mundo afora.
Mas, o que acontece, é que ninguém é demais pra ninguém. Embora muitos não possam ver, todos nós temos defeitos e qualidades. Todos temos um encanto, mais ou menos secreto, por assim dizer. E todos temos um lado obscuro.
E, claro, o desejo também tem os seus mistérios. Não há padrão ou previsão para aquilo que o desperta em nós.
Sorte daqueles que conseguem deixar o orgulho de lado, enxergar além das aparências e encontrar o encanto de alguém. Um pouco de humildade nunca fez mal. E sábios são aqueles que, ao perceberem os defeitos do outro, ponderam se vale a pena deixá-los de lado para viver um grande amor e, claro, concluem que sim, vale a pena. Sempre vale a pena.
Então, sabe, não sou areia demais para absolutamente e ninguém. E, por outro lado, também não há nada que este caminhãozinho aqui não aguente!
Quando a maturidade foi chegando e a insegurança foi ficando pra trás, em alguns momentos o orgulho assumiu o controle e me achei muita, muita areia pro caminhãozinho de uns e outros aí.
Quantas vezes pensamos: O que ele viu nela? Essa aí nunca vai dar bola pra você. Não, ele é demais pra mim. Ela só pode estar com ele por dinheiro. Será que algum dia ele vai me notar? E por aí segue uma lista sem fim de perguntas e observações sobre casais, formados ou imaginários mundo afora.
Mas, o que acontece, é que ninguém é demais pra ninguém. Embora muitos não possam ver, todos nós temos defeitos e qualidades. Todos temos um encanto, mais ou menos secreto, por assim dizer. E todos temos um lado obscuro.
E, claro, o desejo também tem os seus mistérios. Não há padrão ou previsão para aquilo que o desperta em nós.
Sorte daqueles que conseguem deixar o orgulho de lado, enxergar além das aparências e encontrar o encanto de alguém. Um pouco de humildade nunca fez mal. E sábios são aqueles que, ao perceberem os defeitos do outro, ponderam se vale a pena deixá-los de lado para viver um grande amor e, claro, concluem que sim, vale a pena. Sempre vale a pena.
Então, sabe, não sou areia demais para absolutamente e ninguém. E, por outro lado, também não há nada que este caminhãozinho aqui não aguente!
domingo, 16 de janeiro de 2011
O Papel de Cada Um
Não quero soar oportunista, mas a recente tragédia na Região Serrana do Rio do Janeiro tem dado o que falar. E o que pensar também.
Por várias vezes fomos vítimas das chuvas, por conta de deslizamentos e enchentes, e parece que tragédias assim, em maior ou menor grau, irão continuar se repetindo ao longo dos anos. E, toda vez que algo assim acontece, falamos na falta de políticas públicas para cotenção das encostas e para evitar alagamentos. Na irresponsabilidade dos políticos que ano após ano permitem que o pesadelo se repita.
É claro que existe a responsabilidade dos governantes, mas e a nossa? Mesmo que se faça contenção de encostas e que as galerias pluviais sejam limpas e melhoradas, enquanto nós não fizermos nossa parte, de nada adiantará.
Enquanto houver gente construindo suas casas em áreas de risco, desmatando, destruindo, o risco de deslizamentos estará lá. Enquanto houver gente jogando papel, plástico, garrafas, no meio da rua, o escoamento de água vai ser prejudicado. Enquanto jogarem sofás, caixotes, lixo de toda espécie nos rios, eles transbordarão. E ninguém será capaz de evitar uma nova tragédia.
Precisamos tratar nossa cidade como se ela fosse nossa casa e não uma grande lixeira.
Criar toda uma estrutura que funcione bem pode ser dever dos governantes. Mas cuidar da cidade, mantê-la limpa e arrumada, certamente é dever de cada um de nós.
Então, na próxima enchente, antes de reclamar do governo, tente se lembrar daquele papel de bala que você jogou pela janela do carro, do panfleto que você pegou na esquina só para jogar no chão em seguida, do chiclete cuspido em qualquer lugar, das guimbas de cigarro jogadas por aí, dos copos e garrafas PET que você foi incapaz de jogar numa lixeira de deixou ali mesmo, no chão. Parabéns, você provavelmente já fez sua contribuição para um alagamento.
Cada um de nós tem um papel na sociedade e, como numa engrenagem, quando todos trabalham juntos, aí sim é que as coisas funcionam.
Vamos trazer a responsabilidade para nós, em vez de jogá-la sobre os outros.
Por várias vezes fomos vítimas das chuvas, por conta de deslizamentos e enchentes, e parece que tragédias assim, em maior ou menor grau, irão continuar se repetindo ao longo dos anos. E, toda vez que algo assim acontece, falamos na falta de políticas públicas para cotenção das encostas e para evitar alagamentos. Na irresponsabilidade dos políticos que ano após ano permitem que o pesadelo se repita.
É claro que existe a responsabilidade dos governantes, mas e a nossa? Mesmo que se faça contenção de encostas e que as galerias pluviais sejam limpas e melhoradas, enquanto nós não fizermos nossa parte, de nada adiantará.
Enquanto houver gente construindo suas casas em áreas de risco, desmatando, destruindo, o risco de deslizamentos estará lá. Enquanto houver gente jogando papel, plástico, garrafas, no meio da rua, o escoamento de água vai ser prejudicado. Enquanto jogarem sofás, caixotes, lixo de toda espécie nos rios, eles transbordarão. E ninguém será capaz de evitar uma nova tragédia.
Precisamos tratar nossa cidade como se ela fosse nossa casa e não uma grande lixeira.
Criar toda uma estrutura que funcione bem pode ser dever dos governantes. Mas cuidar da cidade, mantê-la limpa e arrumada, certamente é dever de cada um de nós.
Então, na próxima enchente, antes de reclamar do governo, tente se lembrar daquele papel de bala que você jogou pela janela do carro, do panfleto que você pegou na esquina só para jogar no chão em seguida, do chiclete cuspido em qualquer lugar, das guimbas de cigarro jogadas por aí, dos copos e garrafas PET que você foi incapaz de jogar numa lixeira de deixou ali mesmo, no chão. Parabéns, você provavelmente já fez sua contribuição para um alagamento.
Cada um de nós tem um papel na sociedade e, como numa engrenagem, quando todos trabalham juntos, aí sim é que as coisas funcionam.
Vamos trazer a responsabilidade para nós, em vez de jogá-la sobre os outros.
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